O peso de uma decisão: recomeçar depois de anos de carreira
Existe um tipo de decisão que a gente não toma de uma vez. Ela vai sendo tomada aos poucos, em silêncio, durante meses, às vezes anos, até que um dia não dá mais para fingir que ela não está ali.
Decidir começar a faculdade de Psicologia foi assim para mim.
Quando a estrada já está pavimentada
Eu não estava começando do zero. Tenho uma carreira consolidada, construída ao longo de muitos anos de trabalho com sistemas. Uma profissão que conheço bem, onde sei o que fazer, onde sou reconhecido pelo que entrego. Uma estrada já pavimentada, com placas conhecidas e um destino mais ou menos previsível.
E é justamente isso que torna tudo mais difícil. Quando você está no começo da vida, escolher um caminho novo é quase natural. Não há muito o que deixar para trás. Mas quando você já percorreu um bom pedaço da estrada, cada passo para fora dela parece pesar o dobro.
As perguntas que não me deixavam dormir
Por muito tempo, a decisão viveu em forma de perguntas:
- E se eu estiver trocando uma certeza por uma ilusão?
- Será que não é tarde demais para recomeçar?
- Quanto tempo, energia e dinheiro estou disposto a investir em algo que só vai dar frutos daqui a anos?
- E se, no fim, eu descobrir que não era isso?
Nenhuma delas tinha resposta fácil. E acho que algumas ainda não têm.
O peso no futuro
O que mais pesou não foi o presente. Foi o futuro. Uma decisão dessas não muda só a minha rotina de agora: ela muda quem eu vou ser daqui a cinco, dez anos. Ela mexe na segurança que eu construí, nos planos que eu já tinha desenhado, na imagem que eu mesmo fazia de onde eu estaria nesta fase da vida.
Escolher a Psicologia significa aceitar voltar a ser iniciante. Sentar numa sala de aula sem saber as respostas. Conviver com a dúvida de quem está aprendendo, depois de tantos anos sendo quem sabe.
Ao mesmo tempo, percebi que não escolher também era uma escolha, e também teria um peso no meu futuro. Talvez o peso de olhar para trás e me perguntar o que teria acontecido se eu tivesse tido coragem.
Não fiz isso sozinho
Seria injusto contar essa história sem dizer que tive apoio. Minha esposa esteve ao meu lado desde as primeiras conversas, quando a ideia ainda era só uma vontade meio sem forma. Foi ela quem me ajudou a transformar a dúvida em decisão. Sem esse apoio, talvez eu ainda estivesse só pensando no assunto.
Mas, no fim, existe uma parte da decisão que é só nossa. Ninguém pode dar aquele passo por nós.
Por que este diário existe
Este diário nasce exatamente desse ponto: de alguém que decidiu sair de um caminho seguro para atravessar até outro. Aqui vou registrar o que eu sentir ao longo da formação: as dúvidas, os cansaços, as pequenas conquistas.
Ainda não sei como essa história termina. Mas sei que ela começou com uma decisão difícil. E, pela primeira vez em muito tempo, sinto que estou exatamente onde deveria estar.